
A edição deste domingo do Diário Catarinense traz uma entrevista com o Planejador Financeiro Jurandir Sell Macedo, que fala sobre o lançamento do livro “A Árvore do Dinheiro - Guia Para Cultivar a Sua Independência Financeira” e sobre a relação entre felicidade e riqueza, entre outros temas.
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| Dinheiro traz felicidade? |
| Entrevista: Jurandir Sell Macedo Júnior, professor da UFSC e doutor em finanças |
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Responsável pela inclusão da primeira disciplina de Finanças Pessoais em uma universidade brasileira, o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Jurandir Sell Macedo Júnior pretende desvendar a velha máxima: dinheiro traz felicidade? Doutor em Finanças e mestre em Engenharia Econômica, ele é professor do Departamento de Contabilidade e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis, onde ministra a disciplina de Finanças Comportamentais. O investidor e gestor de carteira de ações garante que há dois problemas em não saber fazer poupança. Ou poupa de menos e envelhece pobre, ou poupa demais e não chega a envelhecer, correndo o risco de morrer antes de aproveitar. Na próxima semana, ele lança em Santa Catarina o livro A Árvore do Dinheiro - Guia para Cultivar a Sua Independência Financeira, no qual indica como investir e aproveitar os princípios da economia para aprender a ser feliz. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida esta semana ao Diário Catarinense e descubra se dinheiro traz mesmo felicidade.
OBRA
- Estou lançando um livro que é da coleção Expomoney, uma feira que começou em São Paulo e vai para a quinta edição. A idéia da Expomoney é trazer a educação financeira para as pessoas, bancada pelas corretoras, bancos e empresas de capital aberto. Ela é inspirada num modelo norte-americano, a Money Show. No Brasil, em São Paulo, são quatro dias de feira. Mas também é realizada em oito cidades, onde fica dois dias. A última foi em Brasília. No ano que vem, queremos trazer para Florianópolis. O livro é resultado de muitos anos de estudos, embasados em pesquisas sérias. Porém, ele é apresentado em linguagem simples, fugindo da linguagem acadêmica, para ser mais acessível. Trata fundamentalmente de comportamento financeiro.
DINHEIRO
- É preciso entender a sociedade de consumo. Nós humanos buscamos a felicidade. E temos que entender que numa sociedade capitalista, a felicidade é material. Nós tentamos mostrar que isso é verdade até um determinado ponto. Quando se recebe até US$ 3,5 mil por ano esta correlação é muito grande. De US$ 3,5 mil a US$ 14 mil por ano, esta correlação ainda existe, mas já é mais fraca. Acima, disso ela deixa de existir. E US$ 14 mil por ano, significa rendimentos de pouco mais de R$ 2,3 mil por mês. A idéia é trabalhar com essa idéia de que dinheiro traz felicidade. A felicidade é resultante de três coisas distintas: prazer, engajamento e significado. Quando se trata de prazer, podemos dizer que dinheiro traz felicidade. Quando falamos de engajamento, que é aquela noção de amar, ser amado, de que a vida tem valor e o trabalho e a tua família fazem sentido, aí o dinheiro ajuda só um pouquinho. Embora muita gente ache que ter dinheiro vai fazer ser amado, isso não é verdade. Às vezes é preciso se sacrificar demais para conseguir objetos de consumo que não trazem a felicidade na exata proporção do sacrifício feito. Na idéia de significado, de transcendência, do que significa realmente a vida, o dinheiro não ajuda em nada. O que pode transcender a vida? Religião é a forma mais fácil de entender a transcendência. Mas para muita gente significa pela sua obra, pelos filhos, nesta idéia de não desaparecer simplesmente, de fazer sentido, de ter significado. O dinheiro ajuda no caminho da felicidade, mas se for demais ele perde o sentido.
STATUS
- Trabalhamos muito o conceito de status. O que é status? O desejo de ser valorizado, respeitado. Mostramos que é uma medida relativa. Ter ou não ter status, depende muito de com quem se quer comparar. Muitas vezes, a gente busca o status de forma lateral e não de forma vertical. Nos comparamos muito mais com os vizinhos, colegas, do que com o avô. Se eu disser para minha filha que ela deve ser feliz porque tem uma televisão colorida, ela não vai entender. Vai dizer que nem é de plasma. Enquanto para mim, quando ganhei a primeira televisão em preto e branco, foi uma felicidade. A mesma coisa quando compramos um carro, ele não vai nos fazer feliz porque o do vizinho é mais novo, mas se a gente comparar com o nosso primeiro carro, provavelmente ele é muito melhor. Mostramos que é preciso olhar mais para dentro, para entender aquilo que realmente traz felicidade. Questionamos um pouco esta coisa da busca pelo status. A maior parte das pessoas sabe o que lhe traz prazer, mas nem todos.
POUPANÇA
- As pessoas podem cometer dois erros ao poupar. É possível poupar pouco e ficar velho e pobre, mas também acontece de poupar muito e não ficar velho, morrer antes e não aproveitar nada. A poupança é a semente do futuro financeiro. Mas só uma semente não constrói uma árvore. É preciso jogá-la em solo fértil. Porque alguns orçamentos não funcionam o suficiente para que sobre alguma coisa para colocar em solo fértil? No caso de um casal, é preciso que cada um tenha lá sua mesadinha, além dos gastos comuns, para cada um fazer o que bem entender. Senão o casal vai ficar se boicotando e não sobra nada para poupar.
INVESTIMENTO
- Existem princípios básicos de investimento. Especulação não é fácil. Se ganha muito mais fazendo uma carteira diversificada de ativos do que especulando. O perfil do investidor precisa mudar. Principalmente quem ganha pouco dinheiro. Fundo é bom para quem tem muito. Títulos públicos e ações são alternativas melhores para quem tem pouco. Se o sujeito investir um pouquinho todo mês, tem mais chance de ganhar do que aquele que tenta especular para ganhar rápido. O capital de risco é de risco porque flutua. Existe uma regra que determina o quanto do dinheiro para poupar deve ser investido em renda variável. Pega-se o número 70 e diminui-se a idade. O resultado é o percentual adequado para investir em capital de risco.
ORÇAMENTO
- Para sobrar para investir é preciso ter um orçamento adequado. Na nossa sociedade, não ter tempo dá um tremendo charme hoje, porque criamos necessidades, idéias de que temos que ter tudo a nossa volta. E aí para correr atrás disso é preciso mesmo trabalhar muito. Mas para conquistar a independência financeira é preciso fazer sobrar. Para ter sucesso financeiro é preciso sobrar no orçamento para fazer poupança. No Brasil, de cada seis pessoas, quatro estão devendo, uma não deve nada, mas também não poupa, e apenas uma tem poupança. Há três formas de conseguir isso: a primeira é se pagar, recebe e tira 8% para investir no futuro. A segunda forma é ter um bom orçamento, fazendo sobrar no final, envolvendo mulher, marido e filhos, todos fazendo força no mesmo sentido. E a terceira é criar a falsa noção de escassez. É aquele sujeito que vive dizendo que tá quebrado, que a situação está dramática e tal. A família poupa, e até ele mesmo se convence de que está quebrado. Isso gera poupança, mas a vida que se leva não é nada agradável.
GESTÃO
- Mas poupar não tem nada a ver com ter uma gestão do orçamento familiar como a de uma empresa, por exemplo. Num negócio, para poupar, se corta o supérfluo. Na vida, o supérfluo é justamente o que dá sabor de viver. Pagar juro para banco não dá prazer em ninguém, beber um vinho sim. Na vida pessoal, não somos sempre racionais. As emoções é que valem e se sobrepõe ao racional. O sistema afetivo dos seres humanos interfere nas decisões. Existe uma diferença entre desejar e querer. O desejo é irracional e é ele que move muitas decisões das pessoas. Você passa no shopping e deseja alguma coisa, tem que comprar. Querer é uma coisa responsável, você vai avaliar se realmente precisa daquilo. O segredo não é evitar o desejo. Mas pensar de forma responsável. Há muito de psicologia na gestçao das finanças.